Guia prático de como enfrentar a COVID-19

A COVID-19 chegou e não sabemos até quando irá ficar. O sistema de quarentena de até 30 dias já foi oficializado em vários estados da União e vem acompanhado da consequente redução da atividade econômica a passos largos. Algumas instituições bancárias, nesse sentido, já trabalham com crescimento zero em 2020 e até mesmo projetando uma retração de 4% no PIB. Isto transformou a realidade de todas as organizações brasileiras – sejam elas públicas ou privadas. Os ajustes ainda estão sendo definidos e os impactos mensurados, mas uma pergunta é certa em 100% dos casos: o que podemos fazer em momentos de crise como este? Os passos, do ponto de vista administrativo, são simples e exigem disciplina.

A primeira orientação é criar um COMITÊ DE CRISE. Ele deve ser composto por gestores de cada etapa da cadeia de valor do negócio. O que isso significa? É fundamental criar um grupo que seja multidisciplinar, que tenha atuação em toda a cadeia de transformação do negócio e que permita uma visão sistêmica dos possíveis impactos e oportunidades. Este comitê deve criar uma rotina diária de reuniões – dado o contexto de pandemia, remotas – com duração máxima de 30 minutos.

Paralela à montagem deste comitê, é preciso estabelecer alguns indicadores vitais do negócio que precisam ser monitorados dia a dia. Neste momento, é fundamental enxergar o negócio como se estivéssemos avaliando a saúde de um paciente, numa perspectiva em que alguns indicadores, como temperatura, pressão, glicose, necessariamente têm de figurar nos níveis mínimos tolerados. No caso de um negócio, estamos falando do nível de insumos, estoque de produtos acabados, saldo financeiro em conta, positivação de clientes e inadimplência, por exemplo. Portanto, entre outras medidas, são aspectos fundamentais e que precisam ser monitorados a qualquer mudança de patamar de resultado. 

O segundo passo é o estabelecimento dos CENÁRIOS DOS PRÓXIMOS 90 DIAS. Não estamos falando de revisão do orçamento, forecast, entre outras práticas orçamentárias. Estamos nos referindo à projeção do demonstrativo do resultado (DRE) e do fluxo de caixa para os 90 dias seguintes. É imprescindível a avaliação macro diante de três cenários básicos: otimista, intermediário e pessimista.

Vale mencionar que neste momento a grande maioria dos nossos clientes já projeta um cenário otimista, ainda que com queda de 10% a 20% no período mencionado. Observem que, considerada esta estimativa, são importantes duas visões: a de caixa e a de competência. Ao longo desse período, qual nossa projeção de EBITDA? Em meio a este período, qual nossa necessidade de capital de giro? Lembrem-se: o que quebra a empresa num momento como este é o fluxo de caixa!

O terceiro passo é incumbência do comitê de crise. O mesmo deverá elaborar uma MATRIZ DE RISCOS E OPORTUNIDADES. Isso mesmo, é preciso elencar todos os possíveis riscos que possam afetar o negócio, bem como indicar se há alguma oportunidade acompanhada diante desse cenário de incerteza. Em geral, essa matriz pode ser organizada em quatro grandes drivers principais.

  1. Proteção de talentos: quais os riscos e oportunidades referentes à mão de obra do negócio? Quais áreas ficarão ociosas? Quais equipes têm risco de contaminação
    maior na pandemia? Quais atividades só podem ser realizadas presencialmente?
  2. Riscos operacionais: há risco de redução da produção fabril? Pode haver gargalos do negócio com a redução da equipe? Há risco para a entrega? Quais fornecedores
    podem comprometer o negócio neste momento?
  3. Riscos financeiros: a inadimplência irá aumentar? Há risco de aumento da necessidade de capital de giro? Os ajustes cambiais impactaram a realidade financeira
    do negócio? E o nível de endividamento?
  4. Riscos de atendimento ao cliente: quais os riscos e oportunidades que podem chegar ao meu cliente final? Posso adaptar meu atendimento? Posso ajustar meu produto ou serviço? Como consigo manter a geração de valor?

Logo, é preciso elencar todos esses pontos e priorizar de acordo com o grau de impacto no resultado do negócio e expectativa de ocorrência.

Uma reflexão importante nesse processo é se, de fato, é possível encontrar oportunidades em um momento como este. A palavra crise vem do latim crisis e significa momento de decisão, mudança súbita. Nesse sentido, é fundamental refletir se existe algum serviço ou novo produto que a organização possa atender neste momento. É preciso avaliar também se há como melhorar a relação com o cliente! É fundamental diversificar canais, posicionar minha marca de maneira clara. Portanto, é preciso se reinventar!

Por fim, o último passo é a criação das AÇÕES DE CONTRAMEDIDAS DE MITIGAÇÃO DE RISCO E BUSCA DE OPORTUNIDADES. Para cada medida, deverá ser estimado o impacto nesses 90 dias, discriminando-se se será em caixa ou competência. Além disso, todas essas medidas devem ser organizadas em gatilhos ou ondas. Em resumo, ao passo que os cenários vão se concretizando, essas ações vão sendo colocadas em prática. Toda medida deve ter um responsável do comitê predefinido para implementação.

Dessa forma, neste momento não podemos nos desesperar. Devemos atuar de maneira simples e com muita disciplina, organizando de forma estruturada um contra-ataque à COVID-19. O segredo está na velocidade da tomada de decisões! Todos seremos prejudicados de alguma maneira, todos enfrentaremos uma piora no fluxo de caixa, mas, lembrem-se, nem todos superarão essa crise. Prepare-se, portanto, para estar no grupo dos que conseguirão reduzir impactos negativos e atravessar a tormenta com mais segurança.

Rodrigo Neves

Rodrigo Neves

Economista pela UFMG, pós graduado em Finanças pela PUC MG, Black Belt em Lean six sigma e com 10 anos de consultoria em gestão, atuando em diversos segmentos, sendo especialista em excelência comercial, gestão pública e inteligencia competitiva.

Leonardo Rischele

Leonardo Rischele

Bacharel em Administração pela PUC Minas, MBA em Finanças pela Fundação Dom Cabral. Especialista em Alinhamento de Metas e Gestão Comercial. Atua há mais de 12 anos como consultor de organizações publicas e privadas. Atualmente como Gerente de Projetos do Instituto Aquila. Autor do livro técnico: O Poder da Excelência Comercial (2020).

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